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apesar de toda tecnologia

saudade até do seu cabelo
no ralo do banheiro
a vida segue difícil
pois a nasa ainda não fabricou
travesseiros com seu cheiro

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a vida de quantas cabe nesse poema

é a segunda vez
que espero três horas em pé
na fila do instituto de identificação.
eles dão uma senha
e ainda dizem: “faça o favor de perder não.”
o marido foi-se embora.
me deixou com os filhos
coração na mão e vida no chão
quando partiu pro rio de janeiro
pra trabalhar como peão.
não liga nem dá sinal
não quer nem saber
se tá faltando o leite, a sopa e o pão.
trabalho vendendo quiabo
e meu outro filho
pegando carrego na feira.
queria mermo era tá estudando
porque bem sabe do ditado
“cabeça vazia oficina do diabo do estado”
mas não dão condição, né.
dia desses recente
fecharam a escola e a creche
do meu bairro.
moro em socorro
e socorro é o que grito
todo dia a deus
na porta do meu barraco
pra me livrar desse sufoco.
minha vida até parece uma dança
que eu rebolo
requebro
me quebro to-da
e continuo a mercê
invisível aos olhos de quem vê
tirando de onde não tem
pra conseguir sobreviver.

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uma poesia de 2012

tudo que te compõe
junto ao seu jeito de amar
é armadilha feita pronta
para me pegar
e eu sempre caio
como caem as cobras
dentro dos velhos buracos
fendas e cobras
parceiras anatômicas do encaixe
em harmonia
como os móveis japoneses
me sinto como um traste
quando com saudade
do seu encaixe
a primeira vontade que bate
é de me acabar em cima de você
desde a hora em que o dia nasce
e depois abraça o fim da tarde.

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debaixo dos escombros do prédio
que foi destruído pelas máquinas
debaixo do cimento e pedras
que compunham a guarita
a passagem de josé, carla e fabrício
soterrado o bom dia a boa tarde o boa noite
soterrada a segurança das madrugadas
a guarnição do sono
soterrada a memória
sobre josé, carla e fabrício
ou sobre os outros milhares invisíveis
que guardam as portas dos edifícios

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a carne mais barata do mercado foi a carne negra
hoje a gente não se amansa
se levanta e sacode a poeira
se nos livros nunca contaram nossa historia
dispenso a escrita
uso a rima
vou deixar a mostra
com senhor de engenho
dispenso conversa
nem aceito proposta
escuta essa
negro é lindo
não aceita
morde a testa
engole e cai fora
dessa vez não vai dar pra falar de amor
se a bala que acertou o peito
expôs a ira contra nossa cor
vidas negras em ascenção
quantas marielles vão ter que morrer
pra acordar sua comoção
na pele e na memória tá marcada a tortura
na casa grande nunca existiu ternura
quem bateu nunca lembra
quem apanhou tá a procura
surta
quando ouvir que a regra é clara
revida
diz que prefere escura
é o teu preconceito que merece cura
negras no topo e nas alturas
enxerga isso porque não é loucura
mais ativa que cafeína
desviando de olhares que já não me intimidam
tô organizando a raiva pra partir pra cima
guerreira ocupe espaços
afronte com melanina!

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fumo meu cigarro
suficientes três tragos
e paro
deixo que descanse
em cima do maço
tiro minha camisa
coloco por cima do braço
da cadeira
que assiste toda cena
silenciosa
imóvel
um móvel marrom
que arrastei para dançar
na escuridão finita do meu quarto
iluminado pela luz do modem neon
acendo novamente o cigarro
a ideia surge de um pigarro
me agarro nela
quando me coloco na janela
madrugada a dentro
a noite é sem vento
estrelas me vigiam
e o céu me dá alento
mas tudo logo acaba
quando amanhece
caminho a passos lentos
um corre tão violento
um salve pras mulheres
que tão a milhão
tamo lutando pra ficar viva
num sistema que lucra com a nossa morte, jão
distante de contos de fada
vivendo numa guerrilha
maior estilo maria bonita e dandara
nóis só falta tá armada
porque a mente já anda engatilhada
os versos na ponta da língua
pra ferir mais que espada
coleciono sentidos
para que eu não caia
me sinto destemida
junto das aliadas
a proteção dos orixá
é outra coisa que eu sei que não falha
não aceito homem falando por mim (viiishiiii)
nunca esqueço do lugar de onde vim
das raízes que me deram forças
e me fizeram seguir
dessa forma me imponho
cumprindo a obrigação
de renovar os sonhos
deles não abro mão
cabeça erguida, linda
(deixa ela erguida)
mantenho a instiga
essa é a missão

 

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te amar é mais delicioso
que o pão com queijo coalho
que eu como de manhã
depois de dormir com fome

te amar requer que seja devagar
como o tempo necessário
para se temperar com dendê
como o tempo necessário
para se bater uma boa massa de acarajé

te amar sem precisar
marcar dia para te respirar
poder sentir seu cheiro
orgânico vivo
como o aroma das mangas ao amadurecer

te amar como se servissem um banquete
“sirva-se do que estiver na mesa
e do que não estiver”:
sempre farta
nunca cheia
só me resta repetir o prato.

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