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de qual planeta você veio
para onde afinal vamos
logo esqueço dessa questão difícil
pois quando vejo seus olhos
perceber que seus cílios
são meus pássaros preferidos

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depois de tempos áridos, rabisco um rascunho do que poderíamos ter sido naquele dia. eu não te conheci quando te vi. tão pouco lembro a data, mas lembro do gesto. você estava um pouco perdido diante da multidão de latão de brahma e eu perdida na órbita dos silêncios barulhentos tentando me concentrar nas coisas que dizia. poderíamos ter lido algo bobo. juntos. em voz alta, repetidamente. até secarmos nossas bocas, até irritarmos nossas gargantas, secarmos nossas taças, até que arrancássemos nossas roupas e os vizinhos surtariam e bateriam, irritados, na porta do quarto, onde dormimos pelados.

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suficientemente sóbria para dizer adeus

antes de você sair
preciso que veja
se o concerto do teto funcionou
preciso que não esqueça
de comer as frutas da feira
observe
se não deixei
no canto do quarto
a cortina que comprei
para colocar na janela
essa que sempre te acorda
quando eu insisto em abrir
assim que o sol se ajeita melhor no céu
procure
no pote de ração
olhe também embaixo da rede
na água parada do jarro de flores que você esquece de jogar
na indignação que existe junto com a raiva
quando liga e escuta notícias da televisão
entre os boletos na estante
nas bitucas de cigarro
nas mil declarações de amor que lhe chegam inbox
vigie se por ali
no cheiro do café
no pão assado
os farelos sobre a mesa
no silêncio entre as notas de sua música preferida
dá uma olhada se não larguei por esses cantos
os sete pedaços do meu coração.

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a vida de quantas cabe nesse poema

é a segunda vez
que espero três horas em pé
na fila do instituto de identificação.
eles dão uma senha
e ainda dizem: “faça o favor de perder não.”
o marido foi-se embora.
me deixou com os filhos
coração na mão e vida no chão
quando partiu pro rio de janeiro
pra trabalhar como peão.
não liga nem dá sinal
não quer nem saber
se tá faltando o leite, a sopa e o pão.
trabalho vendendo quiabo
e meu outro filho
pegando carrego na feira.
queria mermo era tá estudando
porque bem sabe do ditado
“cabeça vazia oficina do diabo do estado”
mas não dão condição, né.
dia desses recente
fecharam a escola e a creche
do meu bairro.
moro em socorro
e socorro é o que grito
todo dia a deus
na porta do meu barraco
pra me livrar desse sufoco.
minha vida até parece uma dança
que eu rebolo
requebro
me quebro to-da
e continuo a mercê
invisível aos olhos de quem vê
tirando de onde não tem
pra conseguir sobreviver.

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