a poesia mais fofa do mundo

já faz alguns dias
que tento escrever algo
não algo lindo bonito fofo
do tipo:
“fiz pensando em você”
daí eu penso
FODA_SE
só consigo ser assim
eu amo ou odeio
algo assim
“natureza aquática profunda”
que até poderia ser o nome
de um álbum
de uma banda fracassada
que insisti pra você gostar
e depois quis esquecer
quando a gente brigou
e nunca mais se falou
depois de te matar mentalmente
porque odeio gente que
esconde fere mente
não era pra ser algo lindo
bonito fofo
só algo para não se esquecer
e todo mundo saber
que você é um escroto

poema daquele dia

meu des-querido antônio
lembra-te daquele dia
eu realmente
não deveria ter ido
a situação parecia me alertar
o pneu furou
sabia trocar
e troquei
mas quis acreditar
que valeria a pena
um homem gentil cortês
desconstruído bacana
então lembro do dia que te conhecei
e realmente
enganosa propaganda
não deveria ter levantado
sequer da minha cama.

*inspirado no poema da Ledusha Spinardi*

meu nome

meu nome como uma palavra que você nunca
vai conhecer e por isso nunca vai
falar e ela nunca vai ser concebida
pela sua garganta nem virará som
dito por sua voz que se parece com o som
de uma das páginas do meu livro de poesia
preferido sendo virada lentamente pelas
mãos de uma criança

meu nome como uma palavra que você nunca
vai anotar na última página do seu caderno
de matemática dentro de um coração azul
feito de caneta bic que você passou a morder o bocal
sempre que ficava nervoso em me ver passar

meu nome como uma palavra que você nunca
vai anotar na agenda do seu celular com um apelido
carinhoso e bobo que você escreve sorrindo
e essa palavra escrita sob a tutela do seu sorriso
nunca será meu nome mas sim um nome qualquer
que vou invejar mesmo sem saber qual é

meu nome como uma palavra que você nunca
vai registrar no cartório dos seus gemidos
nos ouvidos dos seus amigos nem nunca vai gritar
quando eu por acaso demorar no banho uma
palavra que nunca vai passar pela sua cabeça
na hora de registrar o seu primeiro filho uma palavra
que você nunca vai escrever numa carta de amor
num poema no espelho embaçado do banheiro
da nossa casa alugada de 2 quartos com vista
para o banco de uma praça onde um velho
vive a dar comida aos pombos

meu nome como uma palavra que você nunca
vai pronunciar sonâmbulo ao levantar no meio
da noite e percorrer o corredor até a casinha
do nosso cachorro que nunca terá o meu nome

meu nome como uma rua que você nunca vai passar
meu nome como um carro que você nunca vai comprar
meu nome como um livro que você nunca vai ler

meu nome
como uma
palavra
que não significa
nada para mim
à medida
que não
significa nada
para você.

você perto
tudo certo
tudo bem

você longe
nada bom
que deserto

bilhete de viagem

tenho total certeza
que pode ser bacana
experimentar marijuana
em seguida
pegar um ônibus
feito caravana

enxergar miragens
misturar paisagens
da caatinga
das savanas
das matas ainda virgens
com as praias de Havana

passar por várias lombras
e em horas
viajar semanas
sem sequer
sair da poltrona

que viagem
uma viagem
dentro de outra viagem

 

 

*poesia conjunta: eu e Luiz.

extraterrestre

a nave pousou sobre o fervente chão
projetou suas pernas longas frias metálicas
saíram de suas frestas
luzes verde neon
informação demais para minha vista astigmática
o extraterrestre estendeu as mãos para o alto
muito mais alto que várias de mim empilhadas
quis buscar outro mundo
para colocar dentro desse
mas desistiu
pesou mais do que a própria cabeça
aproveitou para pichar em cada estrela
para que todos os humanos enxergassem:
que vida é essa?
que mundo é esse?
amem as mulheres
e foi embora
com os dedos melados de tinta neon vermelha.

cada inseto tem um neto
tataraneto de outro inseto
de acordo com a Lei
estabelecida
de driblar sempre a morte
com a vida
cada neto de outro inseto
fica mais forte tomando inseticida

políticas do ‘razoável’
políticas dos ‘nomes próprios’

políticas da assepsia
políticas que não intoxicam
políticas que não misturam

políticas de ‘projeto’
políticas de consenso

política armada entre corpos que não se encontram
política armada entre corpos que não se tocam
política armada entre corpos que não fedem

política de gráficos
política de diagramas

política que se pretende ‘pedagógica’
política que evangeliza
política de conquistar ‘corações e mentes’

política das pessoas limpas
política pra quem não surta

política de quem não pesa
política magra
política sensata

política do coerente
política do que não arrisca

política chefiada por textos
política chefiada por siglas
política escrava da sopa de letras

política das distâncias.
política de quem não chega perto

política que não aqüenda
política que não ferve
política sem delírios

assim como a seca
a massa
só precisa
de uma faísca

solo

engraçado,
pisa-se melhor
com os dois
pés.