Sem categoria

a carne mais barata do mercado foi a carne negra
hoje a gente não se amansa
se levanta e sacode a poeira
se nos livros nunca contaram nossa historia
dispenso a escrita
uso a rima
vou deixar a mostra
com senhor de engenho
dispenso conversa
nem aceito proposta
escuta essa
negro é lindo
não aceita
morde a testa
engole e cai fora
dessa vez não vai dar pra falar de amor
se a bala que acertou o peito
expôs a ira contra nossa cor
vidas negras em ascenção
quantas marielles vão ter que morrer
pra acordar sua comoção
na pele e na memória tá marcada a tortura
na casa grande nunca existiu ternura
quem bateu nunca lembra
quem apanhou tá a procura
surta
quando ouvir que a regra é clara
revida
diz que prefere escura
é o teu preconceito que merece cura
negras no topo e nas alturas
enxerga isso porque não é loucura
mais ativa que cafeína
desviando de olhares que já não me intimidam
tô organizando a raiva pra partir pra cima
guerreira ocupe espaços
afronte com melanina!

Anúncios
Padrão
Sem categoria

fumo meu cigarro
suficientes três tragos
e paro
deixo que descanse
em cima do maço
tiro minha camisa
coloco por cima do braço
da cadeira
que assiste toda cena
silenciosa
imóvel
um móvel marrom
que arrastei para dançar
na escuridão finita do meu quarto
iluminado pela luz do modem neon
acendo novamente o cigarro
a ideia surge de um pigarro
me agarro nela
quando me coloco na janela
madrugada a dentro
a noite é sem vento
estrelas me vigiam
e o céu me dá alento
mas tudo logo acaba
quando amanhece
caminho a passos lentos
um corre tão violento
um salve pras mulheres
que tão a milhão
tamo lutando pra ficar viva
num sistema que lucra com a nossa morte, jão
distante de contos de fada
vivendo numa guerrilha
maior estilo maria bonita e dandara
nóis só falta tá armada
porque a mente já anda engatilhada
os versos na ponta da língua
pra ferir mais que espada
coleciono sentidos
para que eu não caia
me sinto destemida
junto das aliadas
a proteção dos orixá
é outra coisa que eu sei que não falha
não aceito homem falando por mim (viiishiiii)
nunca esqueço do lugar de onde vim
das raízes que me deram forças
e me fizeram seguir
dessa forma me imponho
cumprindo a obrigação
de renovar os sonhos
deles não abro mão
cabeça erguida, linda
(deixa ela erguida)
mantenho a instiga
essa é a missão

 

Padrão
Sem categoria

te amar é mais delicioso
que o pão com queijo coalho
que eu como de manhã
depois de dormir com fome

te amar requer que seja devagar
como o tempo necessário
para se temperar com dendê
como o tempo necessário
para se bater uma boa massa de acarajé

te amar sem precisar
marcar dia para te respirar
poder sentir seu cheiro
orgânico vivo
como o aroma das mangas ao amadurecer

te amar como se servissem um banquete
“sirva-se do que estiver na mesa
e do que não estiver”:
sempre farta
nunca cheia
só me resta repetir o prato.

Padrão
Sem categoria

um ponto de ônibus a noite nunca será um lugar seguro para uma mulher
às vezes um poste, quando com luz, pode sinalizar algum tipo de salvação
sensação ilusória de tranquilidade
o ponto de ônibus
a rua
tão pouco a sua própria casa
potenciais lugares não seguros para as mulheres
não nos querem na rua
o risco nos acompanha como o r da palavra mulher
risco de morte
risco de estupro
risco de assédio
não existem cuidados para tomar
e evitar tudo isso

quando irão reconhecer a luta da mulher mãe?
dar conta da casa
alimentar
educar os filhos
lidar com surpresas
ser abandonada por um homem covarde
enfrentar uma guerra solitária
e ser julgada a todo segundo de sua vida
por cada escolha que decidir tomar

amar outra mulher
a mesma dor habita corpos diferentes
beijar a boca
segurar as mãos
ainda não é seguro amar outra mulher
o machismo injetou
ódio e desprezo
sobre os nossos corpos

o companheiro que diz que ama
também mata a facadas dentro de casa
ainda morta a mulher é culpada
e o homem aplaudido

“tem algo errado com seu corpo”
“tem algo equivocado na sua forma de conduzir seu trabalho, seus poemas, suas músicas, seus estudos”
“você está sendo muito radical ao se posicionar dessa forma”
“você não é capaz de sentir tesão como um homem sente”
“você não é forte”
“você não pode… você deve isso…”
quem se importa com você, MULHER?

Padrão
Sem categoria

pra tocar na rádio

me diz que chega
chega vem
fico ansiosa
conto as horas
pois esse desejo convém
não demora
fala agora
que tava com saudade também
vem com vontade
com coragem
aproveita
me beija, meu bem
já faz tempo
que queria te dizer
vem cá tocar o meu corpo
vê se cê consegue entender
também me resolvo sozinha
com o meu próprio prazer
nunca precisei de um homem
pra me aquecer, acender
rainha da minha morada
não curto ideia errada
se o telefone tocar
atende o chamado
que eu quero ser amada
o endereço cê sabe
o lugar também não erra
entre curvas e esquinas
a gente tão bem brinca
imagino o seu cheiro
nossa sombra refletida na cortina
e isso me alucina
mais gostoso que anfetamina
sinto você chegar
a porta pode encostar
dispensa o relógio
que dentro de mim
cê vai se demorar

é só que eu tava com saudade de você, pretin
de colar do seu lado
pra te dar um beijin
quando cê diz que vem
tudo fica azulzin
vem cá, vem logo, pretin
a transmissão está pronta
vai tocar no radin

Padrão
Sem categoria

seus desenhos
trazem algumas surpresas
do muito que aconteceu
como no dia em que suas mãos
desenharam na minha barriga
o caminho para sua casa
eu ia e voltava
de olhos fechados
tentando acalmar
um borboletário no estômago
porque a sua presença
é parecida com lasers
que invade as aberturas do céu
e risca do calendário os dias
que são difícies de viver
talvez seja mais fácil
escrever poemas que desenhar
porque quando criança
sempre pintava fora dos limites
assinando desastres naturais
acreditando absurdamente
que as palavras precisavam
parar de fazer silêncio
e trazer as surpresas
do muito que existe
aqui dentro.

 

 

 

 

 

Padrão
Sem categoria

nada

eu tento escrever e não sai nada
as rimas saem todas erradas
por acaso me veio essa ideia chata
e não me satisfez em nada
uma música
um poema
um filme
algo que me deixe inspirada
apago tudo e volto pro zero
sinônimo de nada
depois que acendo meu cigarro
o isqueiro apaga
olho para minhas contas
vencidas, atrasadas
serasa
as borras do café formaram um desenho
me disseram que trava
mas passa
e passa como a noite abraça o dia
como alguém sem memória
como alguém que um dia acorda
e só se recorda do nada.

Padrão