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te amar é mais delicioso
que o pão com queijo coalho
que eu como de manhã
depois de dormir com fome

te amar requer que seja devagar
como o tempo necessário
para se temperar com dendê
como o tempo necessário
para se bater uma boa massa de acarajé

te amar sem precisar
marcar dia para te respirar
poder sentir seu cheiro
orgânico vivo
como o aroma das mangas ao amadurecer

te amar como se servissem um banquete
“sirva-se do que estiver na mesa
e do que não estiver”:
sempre farta
nunca cheia
só me resta repetir o prato.

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fumo meu cigarro
suficientes três tragos
e paro
deixo que descanse
em cima do maço
tiro minha camisa
coloco por cima do braço
da cadeira
que assiste toda cena
silenciosa
imóvel
um móvel marrom
que arrastei para dançar
de calcinha e sutiã
na escuridão finita do meu quarto
iluminado pela luz do modem neon
acendo novamente o cigarro
a ideia surge de um pigarro
me agarro nela
quando me coloco na janela
madrugada a dentro
noite sem vento
estrelas que me vigiem
nesse céu de fevereiro.

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um ponto de ônibus a noite nunca será um lugar seguro para uma mulher
às vezes um poste, quando com luz, pode sinalizar algum tipo de salvação
sensação ilusória de tranquilidade
o ponto de ônibus
a rua
tão pouco a sua própria casa
potenciais lugares não seguros para as mulheres
não nos querem na rua
o risco nos acompanha como o r da palavra mulher
risco de morte
risco de estupro
risco de assédio
não existem cuidados para tomar
e evitar tudo isso

quando irão reconhecer a luta da mulher mãe?
dar conta da casa
alimentar
educar os filhos
lidar com surpresas
ser abandonada por um homem covarde
enfrentar uma guerra solitária
e ser julgada a todo segundo de sua vida
por cada escolha que decidir tomar

amar outra mulher
a mesma dor habita corpos diferentes
beijar a boca
segurar as mãos
ainda não é seguro amar outra mulher
o machismo injetou
ódio e desprezo
sobre os nossos corpos

o companheiro que diz que ama
também mata a facadas dentro de casa
ainda morta a mulher é culpada
e o homem aplaudido

“tem algo errado com seu corpo”
“tem algo equivocado na sua forma de conduzir seu trabalho, seus poemas, suas músicas, seus estudos”
“você está sendo muito radical ao se posicionar dessa forma”
“você não é capaz de sentir tesão como um homem sente”
“você não é forte”
“você não pode… você deve isso…”
quem se importa com você, MULHER?

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pra tocar na rádio

me diz que chega
chega vem
fico ansiosa
conto as horas
pois esse desejo convém
não demora
fala agora
que tava com saudade também
vem com vontade
com coragem
aproveita
me beija, meu bem
já faz tempo
que queria te dizer
vem cá tocar o meu corpo
vê se cê consegue entender
também me resolvo sozinha
com o meu próprio prazer
nunca precisei de um homem
pra me aquecer, acender
rainha da minha morada
não curto ideia errada
se o telefone tocar
atende o chamado
que eu quero ser amada
o endereço cê sabe
o lugar também não erra
entre curvas e esquinas
a gente tão bem brinca
imagino o seu cheiro
nossa sombra refletida na cortina
e isso me alucina
mais gostoso que anfetamina
sinto você chegar
a porta pode encostar
dispensa o relógio
que dentro de mim
cê vai se demorar

é só que eu tava com saudade de você, pretin
de colar do seu lado
pra te dar um beijin
quando cê diz que vem
tudo fica azulzin
vem cá, vem logo, pretin
a transmissão está pronta
vai tocar no radin

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seus desenhos
trazem algumas surpresas
do muito que aconteceu
como no dia em que suas mãos
desenharam na minha barriga
o caminho para sua casa
eu ia e voltava
de olhos fechados
tentando acalmar
um borboletário no estômago
porque a sua presença
é parecida com lasers
que invade as aberturas do céu
e risca do calendário os dias
que são difícies de viver
talvez seja mais fácil
escrever poemas que desenhar
porque quando criança
sempre pintava fora dos limites
assinando desastres naturais
acreditando absurdamente
que as palavras precisavam
parar de fazer silêncio
e trazer as surpresas
do muito que existe
aqui dentro.

 

 

 

 

 

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nada

eu tento escrever e não sai nada
as rimas saem todas erradas
por acaso me veio essa ideia chata
e não me satisfez em nada
uma música
um poema
um filme
algo que me deixe inspirada
apago tudo e volto pro zero
sinônimo de nada
depois que acendo meu cigarro
o isqueiro apaga
olho para minhas contas
vencidas, atrasadas
serasa
as borras do café formaram um desenho
me disseram que trava
mas passa
e passa como a noite abraça o dia
como alguém sem memória
como alguém que um dia acorda
e só se recorda do nada.

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através dos meus sentidos
dentro te sinto
quatro paredes
solidão secreta
corpo nas nuvens
viagem que não tem fim
dedos que coreografam círculos
subidas e descidas
o quadril que rege o movimento do infinito
oito invertido
desordem
sobrou calor no quarto
transpirando desejos
orquestrei sozinha a peça dos meus sussurros

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