meu nome

meu nome como uma palavra que você nunca
vai conhecer e por isso nunca vai
falar e ela nunca vai ser concebida
pela sua garganta nem virará som
dito por sua voz que se parece com o som
de uma das páginas do meu livro de poesia
preferido sendo virada lentamente pelas
mãos de uma criança

meu nome como uma palavra que você nunca
vai anotar na última página do seu caderno
de matemática dentro de um coração azul
feito de caneta bic que você passou a morder o bocal
sempre que ficava nervoso em me ver passar

meu nome como uma palavra que você nunca
vai anotar na agenda do seu celular com um apelido
carinhoso e bobo que você escreve sorrindo
e essa palavra escrita sob a tutela do seu sorriso
nunca será meu nome mas sim um nome qualquer
que vou invejar mesmo sem saber qual é

meu nome como uma palavra que você nunca
vai registrar no cartório dos seus gemidos
nos ouvidos dos seus amigos nem nunca vai gritar
quando eu por acaso demorar no banho uma
palavra que nunca vai passar pela sua cabeça
na hora de registrar o seu primeiro filho uma palavra
que você nunca vai escrever numa carta de amor
num poema no espelho embaçado do banheiro
da nossa casa alugada de 2 quartos com vista
para o banco de uma praça onde um velho
vive a dar comida aos pombos

meu nome como uma palavra que você nunca
vai pronunciar sonâmbulo ao levantar no meio
da noite e percorrer o corredor até a casinha
do nosso cachorro que nunca terá o meu nome

meu nome como uma rua que você nunca vai passar
meu nome como um carro que você nunca vai comprar
meu nome como um livro que você nunca vai ler

meu nome
como uma
palavra
que não significa
nada para mim
à medida
que não
significa nada
para você.

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