Arquivo mensal: julho 2016

para as horas de desayuno almoço janta

antes de mais nada:
me fode.
vem com o traço
a letra
a métrica pronta
me fode
querendo
sem medida
ali no canto
no banheiro
sem meias palavras
desenvergonhada
com sede
tropeço embaraçada
no paradoxo
e me fodo
teus olhos asam
me levitam
me levam
volta e meia
no ponto de ônibus
na esquina
no quarteirão
de onde nunca saímos
antes que eu me esqueça
me fode
me leva pra essa esfera
pra passárgada
pra sua terra
quintal
paralelo particular
mil e uma noites
que viram dias
onde todos nos vêem
antes
após
até
minha preposição despreocupada
me fode
na rua
no ar
na vida
despida de razão
vôo alto
sonho raso
caio
levanto
e se penso muito:
me fode.
.
.

na espera de uma chuva
que venha você pra molhar
pra juntar os pedaços

sou igual pássaro quando perde asa
só a sina do cantar
remenda a dor que foi te amar

maria foi-se embora

sonhei
sonhei
com um retalho bem bordado
o sol recém levantado
você foi-se junto com o cangaço
rezei
rezei
pro meu santinho amado
proteger os teus caminhos
pois não posso estar ao lado
mandei
mandei
pra você uma lembrança
um pedaço de fita vermelha
pra enfeitar as suas tranças
cantei
cantei
como passarinho em cajazeira
fazendo da solidão brincadeira
juntando pedaço da correnteza
andei
chorei
derreti-me em aguardente
quando maria foi-se embora
meu sertão deixou de ser contente.

Precisou de muita calma até que o poema brotasse
Um punhado de coentro e limão ralado
Precisou ter os pés cansados dos calcanhares judiados
De caminhar e caminhar e caminhar atrás de nada
Precisou que o sol raiasse trinta vezes,
A conta de um mês, e um pouco mais até
Para que as palavras se alinhassem
No horizonte precisou estabelecer-se o alvo
Inalcançável
E encontrar no último dia a alegria do primeiro júbilo adolescente
Foi preciso ficar nua, trocar de pele, reencarnar
Uma, duas, três vezes
E ter fantasmas enigmáticos grudados no teto
Questionando o porquê de uma quarta-feira vermelha
Ademais, sentir o cheiro da fumaça, do café
Do cigarro indesejado, do ato indesejado,
Da grama da praça e esfregar-se ao livro do poeta enterrado
Porque fora preciso!
Foi preciso imaginar respirar com a árvore e seus galhos elegantes
E perder-se de amores por uma joaninha que me subiu o dorso
Lentamente
Lentamente
Foi preciso abaixar a voz, olhar o chão, esperar o soco
Sem nunca intencionalmente abandonar o combate
Pra aprender algo sobre o equilíbrio
E nada aprender exceto o aprendizado
E ter certeza de que não era nada disso
Nem outra coisa mais, nem mesmo aquele sonho
Ou devaneio
Foi preciso esperar
Apender a esperar,
e saber esperar,
também não olhar para trás.
Partir.

Serei sua rosa
quando em árabe
a primavera
me tingir de beijos

não deixe o samba morrer

Quero um amor brincadeira
feito samba de pareia
pra dançar de dois em dois

Quero beijo
sua boca pra grudar na minha
feito sabor de meladinha

Quero dança de ponta de pé
e calcanhá
enfeitada com fitas coloridas
e o chiado do ganzá

Quero batida de tambor
tiro de bacamarte
vestido de chita
e um bom cantador

Quero achego
a nossa pisada
marcada no chão
e tua boca
cantando ciranda na multidão.

 

(Para Dona Nadir da Mussuca, que me ensinou que a vadiagem não pode parar!)

não compreendo
as tantas coisas
da geografia,
mas o clima tempera
só de pensar
no relevo
do seu corpo
me perco.
esqueço fuso horário
vou
de cidade a cidade
paro lá
no arroio chui
logo que começo
a pensar em ti.

sertão

tem um amarelão da coisa sertão no ocaso que gasta uma beleza danada. a natureza vive gastando beleza, assim todo dia, mesmo quando a beleza é falta.as coisas que o sol sublinha e desloca da estrada pros meu zoín: boi passado da vida, árvore de barba feita, caminho de caminhão, chamego do céu com a montanha, flor sozinha tramando pelo grupo. um dia a chuva vem. que se diga isso e acerte, certo que seja, e de tão certo seja sertão.

da série: para ter tempo de ler

cotidiano II

 

posso visitar sua casa?
uma conversa boa demorada?
beijo e abraço
só com hora marcada,
carta registrada,
três cópias do cpf e rg autenticadas.

 

Exu é banda larga

noite passada sonhei que o mundo virtual estava em pólvora!
muitos comentários
muita gente inconformada
muito tititi muito blablabla
tinha nego se suicidando na rede de tanta tristeza
muita oferenda feita em vão, muita desilusão
haviam os que estavam achando graça
rindo da piada feita de mistérios
os hereges de plantão
trocando o sim pelo não
Oxalá tinha mais de 1000 perfis – como haveria de ser -.
uns pra oxaguiã, outros pra oxalufã, outros pra oxalá mesmo
todos ”lotados”
seguidores crentes devotos
formadores de opinão
cabeças crescem feitas
pessoas rogando por um mundo de paz
véspera do dia da independência, vazou na rede a informação fatídica:
Oxalá, nunca em sua existência, teve tempo pra internet e outras facetas tecnológicas. Deixava isso para Ogun.
Oxalá Jamais abriu um perfil no facebook!
óóóóhhhh!
O perfil ‘lotado’ de Oxalá, era falso.
Foi criado e era administrado por Exu.
fim do sonho.