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para as horas de desayuno almoço janta

antes de mais nada:
me fode.
vem com o traço
a letra
a métrica pronta
me fode
querendo
sem medida
ali no canto
no banheiro
sem meias palavras
desenvergonhada
com sede
tropeço embaraçada
no paradoxo
e me fodo
teus olhos asam
me levitam
me levam
volta e meia
no ponto de ônibus
na esquina
no quarteirão
de onde nunca saímos
antes que eu me esqueça
me fode
me leva pra essa esfera
pra passárgada
pra sua terra
quintal
paralelo particular
mil e uma noites
que viram dias
onde todos nos vêem
antes
após
até
minha preposição despreocupada
me fode
na rua
no ar
na vida
despida de razão
vôo alto
sonho raso
caio
levanto
e se penso muito:
me fode.
.
.

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maria foi-se embora

sonhei
sonhei
com um retalho bem bordado
o sol recém levantado
você foi-se junto com o cangaço
rezei
rezei
pro meu santinho amado
proteger os teus caminhos
pois não posso estar ao lado
mandei
mandei
pra você uma lembrança
um pedaço de fita vermelha
pra enfeitar as suas tranças
cantei
cantei
como passarinho em cajazeira
fazendo da solidão brincadeira
juntando pedaço da correnteza
andei
chorei
derreti-me em aguardente
quando maria foi-se embora
meu sertão deixou de ser contente.

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Precisou de muita calma até que o poema brotasse
Um punhado de coentro e limão ralado
Precisou ter os pés cansados dos calcanhares judiados
De caminhar e caminhar e caminhar atrás de nada
Precisou que o sol raiasse trinta vezes,
A conta de um mês, e um pouco mais até
Para que as palavras se alinhassem
No horizonte precisou estabelecer-se o alvo
Inalcançável
E encontrar no último dia a alegria do primeiro júbilo adolescente
Foi preciso ficar nua, trocar de pele, reencarnar
Uma, duas, três vezes
E ter fantasmas enigmáticos grudados no teto
Questionando o porquê de uma quarta-feira vermelha
Ademais, sentir o cheiro da fumaça, do café
Do cigarro indesejado, do ato indesejado,
Da grama da praça e esfregar-se ao livro do poeta enterrado
Porque fora preciso!
Foi preciso imaginar respirar com a árvore e seus galhos elegantes
E perder-se de amores por uma joaninha que me subiu o dorso
Lentamente
Lentamente
Foi preciso abaixar a voz, olhar o chão, esperar o soco
Sem nunca intencionalmente abandonar o combate
Pra aprender algo sobre o equilíbrio
E nada aprender exceto o aprendizado
E ter certeza de que não era nada disso
Nem outra coisa mais, nem mesmo aquele sonho
Ou devaneio
Foi preciso esperar
Apender a esperar,
e saber esperar,
também não olhar para trás.
Partir.

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não deixe o samba morrer

Quero um amor brincadeira
feito samba de pareia
pra dançar de dois em dois

Quero beijo
sua boca pra grudar na minha
feito sabor de meladinha

Quero dança de ponta de pé
e calcanhá
enfeitada com fitas coloridas
e o chiado do ganzá

Quero batida de tambor
tiro de bacamarte
vestido de chita
e um bom cantador

Quero achego
a nossa pisada
marcada no chão
e tua boca
cantando ciranda na multidão.

 

(Para Dona Nadir da Mussuca, que me ensinou que a vadiagem não pode parar!)

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