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geográfica

o que fazer com as velhas cartografias?
o sangue que deságua mensalmente
do corpo
do meu útero
borra os tecidos
desenha novos mapas das realidades
expele e fala porque é linguagem

o corpo conta histórias.
os traços dos homens riscaram as terras
à réguas, acordos, poder.
meus primeiros dias de ciclo mancham de vermelho vivo as roupas
em formas continentais,
desmancham distâncias,
escalas e linhas imaginárias.

menstruei outra américa e áfrica e pangea.
cada corpo
forma uma nova
rosa dos ventos
quando o sangue desce.

 

 

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Quando corri ladeira acima percebendo que o sol já se ia. Descrevi um passeio-passo, aventoada, e eu não consigo escrever. Para escrever, temos que parar de pensar. “Eu sonho sobre sonhos dentro de sonhos”. Eu ainda estou em mim. Ainda ocupo o espaço da minha mente. Presente. E quero um cigarro. Quando o vento vem e eu já estive arrepiada enquanto subia a ladeira e me perguntava o que faltava. O que era a falta sentida. Não é sobre uma corrida noturna. Os pés saltando tal qual uma folha de papel voando pra longe. Os mesmos dedos buscando dedos. Estou apenas romantizando sonhos que tive. A palavra saudade não existe mundo afora. E eu estou quase lá, quase lembrando. O que falta é um dizer que eu vou te agarrar, sacudir. E quiçá você me diga. O que você pensa quando te encaro? E eu estou arrepiada. Muito arrepiada. O que você sabe? Quem é que sabe? Não é violência. É como quando às dez e meia da noite, ouvindo uma árvore rangendo no escuro do interior, lhe fiz uma cama de flores, e cada pétala que eu posicionava cantava seus olhos, eu mexendo minhas mãos sem nem saber. Executando a ação, sentindo o coração cheio no peito, sem necessitar entender. É isso. Exatamente isso, e enquanto as últimas luzes, cinzas-nuvens e o laranja-lâmpada-incandescente dava lugar ao roxo-azul-imensidão, eu percebia que fora de mim existia marcella. E os limites que parecem severos, tardam a se desfazer. E como dizer que espero se eu não sei se estou. As pessoas se sentem assim um bocado. Intenção e medo em lados contrários, sem muito saber.

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último pedido sem pausa

não sei se sorrio ou choro quando penso em que lugar guardará os meus escritos cartas rabiscos
junto dos teus livros na tua estante gaveta ou numa caixa que um dia pode ser deixada na rua exposta aberta de propósito para que voe tudo e chegue em outros endereços e você me esqueça esquecendo  de tudo que já assinei
mas isso não aconteceu (ainda) (quem vai saber?)
então te faço um pedido
pra gente se desenhar deitar no chão do colchão olhar estrelas  gravar o nosso som ao trepar
enquanto os felinos se mordem lá fora procuro inspiração
como é que faz isso agora  como é que faz isso pelado?
eu não sei desenhar deitar gravar ao mesmo tempo melhor então brincar de pareia
não precisa tirar a roupa ou a gente tira e fica de olho fechado você finge que não me olha eu finjo que não te vejo
com os olhos bem abertos você já parou pra perceber que a cor do móvel de madeira lixado no meu quarto tem a cor do seu olho eu pintaria as paredes de casa com sua cor só pra arriscar que a pele -responsável por carregar a cor- venha com seu cheiro
o ultimo pedido é para que não me esqueças mesmo com o cansaço da vida
o último pedido era pra gente lembrar um do outro até quando se encontrasse e não se desejasse nem se molhasse e o pau não ficasse duro
é duro hoje parece impossível mas pode acontecer
eu preciso lembrar de você a gente precisa lembrar um do outro
a gente precisar memorizar colecionar felicidade pra lembrar depois eu me sinto tão desabitada sozinha
por que você não vem pra gente fumar rir gravar uma música conversar?
preciso de algum pedaço teu um paninho costurado com seu nome além da cueca além da chinela além dos livros e poesia
preciso lembrar da sua voz
como é que lembra da sua voz agora?
como é que lembro dela daqui oitenta anos dizendo ai que gostosa maravilhosa
é apenas o que quero te juro não peço mais nada
mas por favor vem corre logo que eu preciso agora e amanhã
você já pode ter esquecido qual o caminho que cruza já pode ter esquecido qual ônibus que pega pra vir.

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o poema que cronometrei pra fazer antes de você dormir

se teu olho
cai sobre mim
voo feito
querubim
enfeitiçada
com cápsula
de pó pirlimpimpim
o céu de minha boca
beija
azul
e
tudo
fica
afim
dá vontade
de ir ao japão
e procurar
vê se lá tem
um panela
daquelas de barro
com dendê e feijão
você me diz que não,
tem azeite
eu digo: se ajeite!
você: sente
se alimente!
como?
se estamos no oriente
toda essa conversa
quer extrapolar
das frestas do poema
e cultuar delírios
que se resolvam
ali na divisa do tocantins
qualquer coisa assim
pra perceber
que escrevi
tudo sem querer
o que eu queria
realmente dizer
bem antes
da meia noite
antes que
alguém durma
e não dê
eu fiz pensando em você

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no supermercado

Sempre afirmo que supermercados são os melhores lugares para a paquera. Esqueça shows, festas e boates. Nesses casos, o que há são fragmentos clichês de conversa entrecortados por ruídos e uma dificuldade gritante de se ouvir o que se diz; você precisa enfiar a boca no ouvido da pessoa para se fazer escutar; tudo bem que isso é maravilhoso, mas é próprio da etapa seguinte. No supermercado, há um trânsito, além de carrinhos, de olhares: aquele cruzamento de retinas entre gôndolas e freezers; em casos epifânicos, poderá ocorrer um estacionamento de mirada, um lampejo nada econômico de 220 volts, mesmo que a pessoa esteja à frente de uma fileira de baygons; um arrebatar desses que faz esquecer do carrinho de compras, até ouvi-lo derrubar ao longe uma torre de latas de nescau. Aí é onde está a diferença medular entre o supermercado e os outros espaços de enlace dos corpos: puxar um assunto não será difícil com alguma presença de espírito e carisma. Pule o “você vem sempre nessa festa?”, daquela boate escura e barulhenta, e vá adiante com “a pêra tá um absurdo de cara!”. Como de fato a pêra está um absurdo de cara, a frase produzirá um efeito atrativo pela costura com o real. Para os afeitos ao humor, pode valer a hipérbole “nossa, gastei metade do meu salário com essa pêra!”. Alguma responsividade e a conversa pode rumar para toda uma discussão sobre o índice de preços ao consumidor, à política de juros do cupom, à vozinha do guido mantega. e daí vocês lembram de manteiga, marlon brando e maria schneider. Antes disso, o cenário ofereceu sugestões em abundância: vassouras, pepinos, cenouras, ovos, leite, bananas. E quem sabe um debate sobre a textura das laranjas, a vivacidade dos morangos, a elegância das ameixas. Ah, os cafés. Um café pra nós dois? os boêmios aproveitarão melhor a seção de vinhos. merlot ou cabernet? Na minha ou na sua casa? Um relógio de parede em destaque na promoção pode lhe avisar a hora certa de fazer aquele elogio ou um convite. E não será considerado contravenção abrir o listerine na seção de higiene para dar aquela melhorada emergencial de hálito. Se partilharem da prática de criar animais, a chegada às prateleiras de ração pode alongar deveras a conversa, que poderia findar na apresentação dos devidos pets. Além disso, amantes da culinária poderão gastar infindas horas num diálogo sobre aquele prato árabe ou aquela sobremesa baiana e, na seção frigorífica, há que se lembrar do verbo que se faz carne, embora a temperatura desta esteja mais análoga a de fornos quentes. Numa tarde inteira de comparação de preços, mentes, corações e almas poderão inflacionar-se até que os corpos possam dizer, entre quatro paredes, que na verdade não se vale muita coisa. Ou tudo pode acabar mesmo naquela mera fitada diante de inutilidades empacotadas, com mãos que quase pousaram juntas no mesmo pacote de doritos. e vão-se, cada um para sua casa, comer os respectivos doritos.

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