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sonhar
mesmo tendo que trabalhar
sugando o tempo e a vida sem parar
o mundo dizendo:
“eu vou te cansar!”
e eu pensando:
“você não precisa correr…”
segura aqui a minha mão
divido o peso
e coloco mais farinha no pirão
engrosso o caldo do feijão
pra matar a nossa fome
de viver sem medo
melando os dedos
lambendo os beiço
sem precisar conter
sem nunca mais ouvir dizer:
“você tem que vencer.”

 

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em novembro do ano passado
no auge da monarquia do mosquito
li uma declaração do ministro da saúde
“sexo é para amadores, gravidez é para profissionais”
eu quis gritar. atordoada.
e o controle sob o meu próprio corpo?
não é tubo de ensaio.
e o meu direito de decidir?
mas não interessa nada
que se diga sobre as mulheres.
fique calada!
o que interessa é o mosquito.

faz tempo
li numa matéria que:
“mulheres que usam comprimidos anticoncepcionais tendem a usar menos camisinha”
eu quis não enxergar.
mulheres não usam camisinha masculina.
são os homens que usam este artefato
e pasmem
nos seus próprios corpos, respectivos falos!
mas mesmo assim:
sim, são as mulheres que não usam.

em alguns anos atrás
há quem dizia que
“com uma mulher na presidência, há de melhorar a vida das mulheres”
como num jogo de tabuleiro
como num jogo de xadrez político.
muitas perdas. muitas derrotas.
volte infinitas casas.
permaneça na linha de tiro.
mulheres.
a maioria negra.
estupradas.
acuadas.
amedrontadas.
criminalizadas.
violentadas.
sem liberdade.
mortas.
há no Estado
um prazer em punir as mulheres.

nos jornais relatos:
“mulher é morta”
e por que não:
“marido matou e escondeu o corpo”?
não pode a palavra F E M I N I C Í D I O
estampada em caixa alta
negrito
nos jornais?
“matou porque amava”
“homem estupra mulher que saiu sozinha na madrugada”
“fiz por ciúmes”
o jornalismo não mede esforço
grotesco machista
sempre de acordo
em favorecer e defender
a posição de honra masculina
é curtida,
compartilhamento
e comentários nauseantes
nas redes e vidas sociais afora.

[no meio disso tudo
a gente evapora.
a força parece que vai embora
mas resta ainda um cilindro de oxigênio
sob alta pressão
cheio de coragem]

luto pelo término
do patriarcado.
das dores silenciosas.
dos gritos abafados.
da submissão.
de não poder ser o que se é.

minha poesia luta pelas mulheres

permaneço na trincheira
até que a nossa voz se espalhe
até que a liberdade seja a seiva
que preencha nossas raízes.

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filé de peixe

o rapaz apresentável
tinha cheiro de mar
e era o mais fresco da feira
em toda extensão da pele, sal
no fundo dos olhos, brilho
o papel que o envolvia
trazia notícias do dia
e mistérios das bandas de lá
vou preparar ainda hoje, pensei
acertei no aconchego
mandei sentar
servi sua taça
água pra refrescar
vinho pra embriagar
quem sabe esquentar
deixei de molho
manuseei seu corpo
com meus olhos fechados
senti sua escamas
sua pela lisa e molhada
cozinhei à vapor
marinei com limão
temperei no azeite
flambei no conhaque
enrolei na folha de bananeira
passei sal grosso
pré aqueci o forno
preparei o pirão
torrei a farinha
ajeitei a mesa
e uh la la!
já estava no ponto
me lambuzei
me acabei em sua carne
segurei com as minhas mãos quentes
devagar
com suspiro
degustei como se fosse o último prato da vida
estava tão saboroso
que me deu um suador
me estirei no chão
e acendi um cigarro
o rapaz apresentável
com cheiro de mar
era o mais fresco da feira
lavou a loça
passou um café
e queria se casar
embrulha esse, moço!
embrulha esse moço!

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Nem somos pessoas. Tudo é possível de boa risada quando rios caudalosos descem a corredeira. Tudo é possível de boa risada quando os pés vão encontrando a estrada, linear, íngreme ou toda virada. Surpresa não sermos e vivermos no absurdo, gastando rimas erradas por sentimentos bárbaros, rios inteiros também de lágrimas, eu nado! Antes que a vida normal acontecesse, já havia o vento conduzindo a valsa das folhas, o livre abandono das espumas junto ao movimento das ondas que se fecham ao movimento dos olhos; já havia a serena calma das conchas, a elegância displicente dos ouriços ao calor do sol que se denuncia na linha do horizonte. Nem somos pessoas, somos apenas um acontecido num mundo estranho. Queremos preencher ausências com barulho e mergulhar breve como quem voa sob às medidas do infinito. O que nos faz ficar cada vez mais neste perene revirar das horas, dispondo-se de disfarces, abismos, deslumbres e santuários? Porque somos pessoas. Nossa trágica sina. Exibindo sorrisos e segredos no mais desconhecido céu ou na sutileza do mar. Desfilando no tom corredeiro com dezesseis pernas, destilando no ar um cheiro peculiar e escrevendo versos em prosa para algum dia pronunciar. . . Se tudo é possível e não somos pessoas, revelo tudo ao inverso, o que seremos então?

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